A história de uma cidade costuma ser contada pelos seus registros e documentos oficiais, mas é na voz de seu povo que ela ganha vida e sensibilidade.
Com o objetivo de preservar essas memórias para as futuras gerações, o radialista Vanderlei Souza lançou no seu canal de YouTube “Pod Mais”, em 6 de março, o documentário “Histórias da nossa gente”.
Produzido ao longo de 2025, o filme de 30 minutos mergulha nas raízes de Serra do Ramalho, na Bahia, destacando as vivências e a perspectiva daqueles que participaram ativamente de sua fundação.
O resgate da identidade serramalhense
A inspiração para a obra surgiu de uma lacuna digital percebida pelo próprio diretor. Com mais de uma década de atuação na comunicação, passando por rádios comunitárias e emissoras comerciais da região, Vanderlei notou a escassez de materiais sobre a história de Serra do Ramalho na internet.
Para preencher esse vazio, a produção adota uma abordagem plural e cronológica, fugindo de um formato engessado para dar protagonismo aos relatos de povos originários e migrantes.
O documentário costura as vivências de indígenas, quilombolas, ribeirinhos e dos colonos que chegaram à região impulsionados pelo projeto de colonização, gerido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
A narrativa avança desde os primórdios das comunidades até a emancipação política do município, que antes pertencia à cidade de Bom Jesus da Lapa.
Complexa formação territorial e social
Para entender o documentário, é importante conhecer a história de Serra do Ramalho. O município, localizado no Oeste da Bahia, às margens do Rio São Francisco, foi criado em 1975 pelo Projeto Especial de Colonização (PEC-SR).
A ideia do INCRA era reassentar cerca de 4.000 famílias que perderam suas terras por causa da barragem de Sobradinho. Porém, a região já era habitada por comunidades tradicionais, como quilombolas e indígenas.
Esse encontro de diferentes grupos gerou uma rica diversidade cultural. A cidade passou a reunir famílias atingidas pela barragem, moradores antigos e migrantes vindos de vários estados do Nordeste.
Hoje, Serra do Ramalho tem cerca de 20 agrovilas e 31 povoados, com mais de 80% da população vivendo no campo, ligada à agricultura familiar e às festas típicas, como a vaquejada e o torneio leiteiro.
Seu nome vem de uma serra de 438 metros e homenageia a família Ramalho, que vivia na região desde o século XIX.
Produção e incentivo cultural
A realização de “Histórias da nossa gente” é também um reflexo do fortalecimento das políticas públicas de cultura. O projeto foi viabilizado através da Lei Paulo Gustavo, com adesão da Secretaria de Cultura do município.
A captação das imagens aéreas e das entrevistas contou com a parceria do cinegrafista Itamar Mendes, braço direito do radialista.
Para Vanderlei Souza, a conclusão da obra traz a sensação de dever cumprido e toca em sua própria biografia: com pais ribeirinhos e avós que já habitavam a região, ele imortaliza na tela tanto a história da cidade quanto um pedaço inestimável de sua própria trajetória de vida.
Confira a entrevista na íntegra com o idealizador do documentário e assista à obra disponível no YouTube:
1. Primeiro, fale um pouco sobre você, sua trajetória profissional e cite uma breve sinopse do documentário.
Então, eu já vou para mais de 10 anos na área da comunicação, atuando em rádio e, também, redes sociais e eu vim debaixo, sabe? Eu comecei em rádio comunitária, eu trabalhei seis anos em uma rádio comunitária, trabalhei mais cinco em emissora comercial aqui na cidade de Serra do Ramalho, que é rádio Sucesso FM. E, após isso, me mudei para Barreiras bem recentemente, final de 2025, onde lá estou também atuando no rádio. Estive na rádio Oeste FM e agora integro o grupo Balbino de comunicação, onde atuo em uma rádio do grupo. E a minha trajetória, ela parece que é uma trajetória curta, mas longa ao mesmo tempo, enfim… e, nos meados disso tudo, eu sempre fiz algo votado para o social, para o comunitário, na cidade de Serra do Ramalho enquanto estive morando por lá. Lá, criei o canal POD MAIS, que inicialmente era um podcast. Surgiu através de um projeto onde eu entrevistava pessoas influentes da região, entrevistava autoridades e fazia cobertura também de alguns eventos e tudo mais. Então, esse documentário “Histórias da nossa gente” surgiu também através de uma oportunidade, que é a lei Paulo Gustavo, uma lei de incentivo para os artistas do audiovisual. A Secretaria de Cultura aqui de Serra do Ramalho aderiu ao projeto e aí eu me inscrevi com a proposta de criar esse documentário. Antes eu já tinha participado de uma política semelhante, né, que foi a lei Aldir Blanc, que surgiu naquele período da pandemia, onde artistas estavam impedidos de fazer os seus shows, né, trabalhar em teatros, enfim, e nisso eu também fui contemplado. E, naquele momento, foi que eu criei o Canal POD MAIS. Obviamente, posteriormente a gente presta conta do que foi feito com o recurso que a gente recebe e o mesmo ocorreu com a lei Paulo Gustavo, que foi um recurso muito bom, que veio para o audiovisual, então muitos artistas tiveram a oportunidade de ser contemplados, apresentar os projetos, e eu estou nessa fase de apresentar o projeto que foi criado com muito, muito carinho, foi criado com uma boa intenção de resgatar as memórias de Serra do Ramalho.
2. O que te inspirou a criar um documentário com relatos que pessoas que fomentaram a história de Serra do Ramalho?
Bom, o que me inspirou a criar um documentário com relatos de pessoas que fomentaram a história de Serra do Ramalho foi justamente o fato de nós não termos muitos conteúdos, principalmente no YouTube, na internet, sobre isso. Então, muitas vezes as pessoas digitam no YouTube, “história de Serra do Ramalho”, não vão achar muita coisa. Então, isso foi uma das minhas inspirações, já tendo em vista que eu já havia assistido histórias de outras cidades e eu pensei em relatar isso para as próximas gerações, para essas e próximas gerações de serramalhenses e de pessoas que tenham o desejo de saber mais sobre a cidade. Então isso me inspirou bastante, ter a certeza de que esse documentário vai alcançar a vida de muitos e muitos que não conhecem ainda como surgiu Serra do Ramalho.
3. O que as pessoas podem esperar desse projeto?
As pessoas podem esperar algo bem profundo, muito conteúdo. Eu tenho certeza de que isso vai para as salas de aulas aqui do município, alguns professores já até me sinalizaram, falaram “eu vou usar isso quando nós formos trabalhar a temática Serra do Ramalho”. A gente for trabalhar um mês ali, né, que a Serra do Ramalho faz aniversário, que é o mês de junho”. Então, certamente isso vai rodar bastante nas salas de aula. Eu sei que as pessoas podem esperar desse projeto algo bem marcante, bem profundo, muitas vezes emocionante, mas também até uma coisa de esperança, sabe, para entender de que a evolução acontece quando as pessoas estão alinhadas no propósito de crescer. E isso mostra no documentário, pessoas que chegaram aqui sem muita expectativa. Claro que tiveram ajuda, mas às vezes não só ajuda basta, basta a gente também ter coragem para trabalhar, para erguer e foi isso que aconteceu.
4. Qual foi o seu principal objetivo ao produzir esse documentário?
O meu objetivo ao produzir esse documentário foi mesmo passar de uma forma, não uma forma jornalística a fundo, pegando ali, esmiuçando, mas sim, o objetivo era mostrar a ótica de cada povo, porque Serra do Ramalho é uma terra que a gente tem aqui, povos originários, né? Temos os povos indígenas, temos os quilombolas, temos ribeirinhos, pessoas nativas aqui da região e temos aquele pessoal que veio para cá através do projeto PEC-Serra. Então nós temos várias culturas, vários povos formando essa cidade chamada Serra do Ramalho. E depois, posteriormente, os colonos. Muita gente que veio para cá da Paraíba, de Pernambuco, enfim, Sergipe… veio muita gente para cá e ajudaram a formar a cidade que é hoje. Então, o projeto Pec-Serra, feito pelo INCRA, ele deu só um start, trouxeram ali as pessoas que vieram lá de Sento Sé, Casa Nova, XiqueXique, Remanso, mas já tinha muita gente aqui, tinha os povos originários, tinha os ribeirinhos. Antes era município de Bom Jesus da Lapa, então depois teve uma revolução, que foi a questão da emancipação política, passou a ser Serra do Ramalho de fato. Então, o objetivo foi mostrar pela ótica de cada povo desse, então coloquei cada representante, um ribeirinho, um quilombola, uma pessoa que veio de Remanso, de Sobradinho, um colono, enfim. A gente quis passar através da fala dessas pessoas que vivem na prática.
5. Para você, qual é a importância de registrar a memória de uma cidade como Serra do Ramalho?
A importância de registrar a memória de uma cidade como Serra do Ramalho é muito grande, porque a gente enquanto criador de conteúdo não faz ideia do quanto isso é importante. Para muita gente, é um documentário, né? Para outras pessoas, é realmente a memória, a história vivida e falada por quem realmente viveu na prática e viu tudo isso acontecer. Quando a gente fala em criar algo que talvez estivesse adormecido, eu sei que depois vão surgir outros documentários talvez até mais elaborados, com mais recursos, com mais estrutura, com mais qualidade, mas esse aí vai dar um start bem gigante para todas as gerações que vão assistir e talvez eu não faça ideia do quão grande isso vai ser em relação à importância para a população.
6. Após concluir o projeto, como você se sentiu? Como o documentário se conecta com sua trajetória de vida?
Olha, a sensação, como todo projeto que eu desempenho, é que poderia ter feito mais. Eu sou bem crítico comigo mesmo, eu me cobro bastante e fica aquela sensação de “poxa, eu poderia ter feito mais”. O documentário tem trinta minutos, então eu tive que enxugar o máximo, tive que tirar muita coisa, mas a sensação foi de dever cumprido, de missão cumprida, principalmente quando você se senta para assistir, embora eu tenha editado, tenha roteirizado, mas quando você se senta para assistir, você está vendo uma obra sua, então é algo muito marcante para um profissional. Conectase assim com a minha história de vida no sentido de que eu também fiz parte disso. De certa forma, minha família, meus pais são ribeirinhos, minha avó veio de São Paulo, mas meu avô por parte de pai morava aqui antes de tudo isso… então querendo não, faz parte da minha história também.
7. Em relação à estrutura do documentário, como foi pensada a montagem e a ordem dos relatos?
Ela foi pensada justamente na ordem dos fatos. Primeiro começou com o INCRA, né? Criando esse projeto PEC-Serra. O único projeto de colonização especial da Bahia. Então, a gente começa contando ali com a participação do pessoal do INCRA, depois meio que já emenda já com as pessoas que o INCRA trouxe para a região, né? Então, já temos aí a participação de outra pessoa e aí depois vamos para a parte dos povos originários, que já estavam aqui também. Aí logo após a gente vai também para os povos ribeirinhos e aí depois vamos para os quilombolas, depois os professores, que educaram ali as pessoas, né? Pessoas que estavam aqui, depois saíram, voltaram, retornaram e a gente fecha inclusive com a participação do artista que fez o hino de Serra do Ramalho, que também tem uma história com a mãe dele que foi uma dessas pessoas que veio também para Serra do Ramalho no início de tudo. Então a ordem foi pensada justamente para contar na linha do tempo correta tudo que foi acontecendo. Tá bem legal, tá bem gostoso de assistir.
8. Além de você, quais outras pessoas estão por trás da realização do projeto?
No documentário, esteve comigo o meu colega, Itamar Mendes, que é um cara também apaixonado por cultura, apaixonado por Serra do Ramalho, apaixonado por tudo que envolve entretenimento e cultura aqui no município, então ele é o meu braço direito nesse projeto, esteve comigo indo para as comunidades, foi meu cinegrafista, [fez] imagem aérea. Nós fizemos tudo com pouco [recurso], nós fizemos muito até, então quero agradecer a ele, que me deu esse apoio, esse suporte aí gigantesco e continua ainda, porque todo o processo meio que ainda não acabou. O projeto não se limita só em postar e colocar à disposição para as pessoas assistirem. Logo após a gente tem que também prestar conta, ainda estamos na fase de divulgação, então é algo bem marcante. O recurso é obviamente que não é o suficiente, quando você tem que comprar equipamentos, fazer tudo na prática. Eu pensei até em contratar uma equipe e tal, mas eu queria fazer com as minhas próprias mãos, com o recurso que a gente teve para que a gente pudesse também crescer profissionalmente. Querendo ou não, é uma prova e a gente meio que está aí querendo tirar um 10.
9. Gostaria de ressaltar mais alguma questão que ficou de fora das perguntas?
A ressaltar algumas questões é o apoio que foi dado aí pela Secretaria de Cultura de Serra do Ramalho, pela coragem, né, muitas cidades não tiveram a oportunidade de abraçar esse projeto, de trazer essa política de incentivo à cultura para as suas respectivas cidades. Então, a Serra do Ramalho está sempre atenta e olhando para os projetos que são colocados à disposição para os fazedores de cultura. Então, Serra do Ramalho se destaca nesse sentido, através do secretário Carlos Caraíbas, do diretor municipal de Cultura, Leandro Nogueira, sempre em busca de trazer esses recursos. Gostaria de também ressaltar aqui a participação dos fazedores de cultura, dizer que eles precisam estar atentos também, porque o recurso vem e as pessoas devem estar atentas para aproveitar e receber essa oportunidade de também colocarem em prática, colocarem para fora aquele projeto que muita gente tem no papel ou muitas vezes só na ideia. Muita gente tem um roteiro de um filme, muita gente tem o roteiro de um esquete, tem um documentário, tem um clipe que ela deseja fazer, mas infelizmente não tem recurso, mas aí quando vem essas políticas destinadas pelo Governo Federal e as cidades, as prefeituras, as secretarias abraçam, aí é hora desses fazedores de cultura ficarem atentos e irem para cima para executarem os seus projetos.

